terça-feira, 22 de março de 2016

Zona Mágica


Eu tive muitas dúvidas em relação a escrever ou não sobre Zona Mágica. Fiquei pensando sobre isso durante vários dias. Valia a pena gastar tempo com ele? Pode parecer um pouco pretensioso da minha parte, afinal não sou nenhuma grande formadora de opinião, mas a questão é que eu tenho alguns princípios para decidir sobre o que postar aqui. Além do meu gosto pessoal em si, levo bastante em consideração também, em que medida produzir um texto sobre o jogo A, B ou C vai ser um exercício benéfico, tanto para mim quanto para quem eventualmente for ler. Eu detestei Zona Mágica no meu primeiro contato e apesar da segunda experiência ter sido um pouco melhor, ficou bem claro que não faço parte do público-alvo do jogo. E aí está um ponto, que eu acredito vale refletir.


Eu falei um pouco sobre isso no podcast que gravei depois da edição deste mês do Guadalupeças. Não é porque a gente não curtiu um jogo, que ele precisa ser necessariamente ruim. Às vezes, é só uma questão de não se adequar ao nosso gosto pessoal. Claro que quanto mais diverso for o público atingido melhor. Mas isso não é um obrigação e não há nada de errado em focar em um determinado nicho. O que não significa que eu não tenha visto problemas no Zona Mágica. Assim como vi coisas boas também, senão esse texto não existiria.

Antes de começar a escrever sobre o jogo em si, gostaria de comentar ainda um segundo ponto que acredito valer a nossa reflexão. Zona Mágica foi desenvolvido por uma empresa sobre a qual nunca tínhamos ouvido falar até sua entrada em financiamento coletivo. Apesar disso, o jogo tem mostrado um progresso surpreendente, estando no momento em que escrevo esse texto com 64% da meta atingida. Acredito que esse sucesso se deve ao nível de profissionalismo que a Arcano Games mostrou desde o primeiro momento. Escolheram um produto adequado para sua estreia no mercado e o apresentaram de uma maneira que deixou todos muito impressionados.

Quando entrei no Kickante e vi a duração do vídeo de apresentação das regras fiquei achando que era sacanagem. Mas eles realmente conseguem em 5 minutos e 50 segundos explicar tudo com bastante clareza. Isso acontece porque as ações básicas do jogo são bem simples, Sua complexidade (e maior problema, na minha opinião) está no uso que os jogadores irão fazer das cartas. Aprender a jogar é fácil, fazer isso bem já é outra história. Essa é uma linha muito seguida pelos jogos em geral atualmente, visando diminuir ao máximo a barreira de entrada.


Zona Mágica além de ter um bom apelo por se tratar de um cardgame, usa uma temática extremamente popular aliada a referências de cultura pop e um design caprichado. Muitos lugares-comuns em uma mesma frase, né? Mas dependendo da proporção e de como são utilizados esses ingredientes, a mistura pode dar muito certo. Apesar de ser um cardgame, Zona Mágica trabalha ativamente com diversos elementos no tabuleiro (parte mais interessante do jogo, na minha opinião). Quanto as referências, isso é algo que vejo com cautela. Acho que a linha entre homenagem e cópia é bem tênue. Além de que é preciso, alguma inspiração para relacionar a referência famosa com a sua função no jogo e ter um efeito cômico. Acho que fazer humor é objetivo desse tipo de uso. Por fim, o design, que precisa de um parágrafo só para ele.


Zona Mágica tem um design bem bacana. Gostei bastante do tabuleiro, apesar de ser colorido em excesso, a trilha de pontuação chega a doer os olhos. Porém, ele possui uma boa iconografia. Os círculos dos cristais podem ter uma marcação um pouco confusa, isso porque o jogo usa miniaturas no lugar de marcadores mais tradicionais e os espaços dos pontos são em espiral. Mas não considero que elas foram uma escolha ruim, pelo contrário. Acho que dão uma boa identidade ao jogo, além de serem bem bonitas. Talvez, a questão seja adequar os espaços para melhor acomodá-las. Além das miniaturas de mago, o jogo usa como marcadores a mesmas pedras bacanas do Quartz. Só não curti muito o design das cartas, achei muito poluído. Isso me incomoda muito mais aqui do que no tabuleiro. Tratarei mais detalhadamente sobre isso quando entrar nas regras em si.



A galera da Arcano Games ofereceu livremente cópias do protótipo para quem quisesse avaliar e divulgar. Eu não peguei a que está comigo diretamente com eles, pois não vi quando eles fizeram o anúncio. Ela me foi gentilmente emprestada pelo André, que é um dos organizadores do evento Fábrica das Peças, que acontece toda quarta-feira no Shopping Nova América. Ao receber, ele colocou uma foto do jogo como capa do evento da semana e foi isso que despertou meu interesse. O protótipo está com uma qualidade incrível, passa por produto finalizado fácil. A caixa está com uma qualidade muito boa e vem inclusive com insert. Acho admirável e digno de nota essa preocupação em proporcionar um primeiro contato, ao menos visual, tão bom. É um jogo que ao olhar seus componentes dá vontade de conhecer.




Em Zona Mágica, cada jogador é um mago participando de um torneio. Cada um deles possuem habilidades únicas que lhes conferem estilos de jogo diferenciado. O manual traz explicações e dicas sobre como jogar com cada um. O que pode ser considerado bom para alguns e ruim para outros. Há quem acredite que o melhor é ir descobrindo através da experiência proporcionada pelo jogo as características de cada mago. Eu gostei, acho que ajuda os iniciantes e pessoas que não possuam tanta intimidade com esse tipo de jogo.


Cada mago possui uma carta de implemento própria, é um item mágico que ficará permanentemente aberto na mesa. Junto com ele, no início da partida, o jogador receberá mais quatro. Ele deve escolher um para ficar e um para remover do jogo. Os outros três são devolvidos, eles são embaralhados e dois aleatórios são separados para cada jogador, formando um deck que deverá ser colocado no local indicado no tabuleiro. O restante está fora do jogo, assim como a primeira inicial. Essa é a regra básica para a distribuição dos implementos, existe ainda uma regra avançada. Essa parte não está bem explicada no manual, tive que reler umas três vezes para entender bem.


O manual está bacana para uma versão de protótipo, mas precisa passar por uma revisão. Além de ter algumas partes que podem ser melhor esclarecidas como essa dos implementos, ele ainda tem alguns problemas de organização, redundância e pequenos erros de português. Achei as falhas nas cartas mais preocupantes. As cartas de mago possuem uma falha grave, a posição dos círculos de cristais está invertida em relação ao tabuleiro. As cartas em geral também possuem uma quantidade de texto que considero excessiva. Em algumas delas, falta clareza sobre efeitos e em outras o texto está redundante. Também há ocorrência de erros de digitação e desrespeito em relação a margem/alinhamento.

Depois da distribuição dos implementos, cada jogador deve posicionar suas três miniaturas. Todas começam em zero na trilha de pontuação e as restantes são colocadas conforme indicado na carta de mago nos círculos de cristais. Na parte de baixo do tabuleiro serão abertas as cartas de mana, sendo onze no total, elas são o contador do jogo. Quando acabam o marcador de turno deve ser avançado. Os círculos mágicos já começam preenchidos por manas, eles possuem um marcador para indicar qual mana pode ser substituída. Na sua vez, o jogador compra mana na parte de baixo do tabuleiro e pode colocá-lo em qualquer um dos círculos mágicos, substituindo aquele que estava marcado. Se assim o fizer, a pedra é movida para o mana ao lado no sentido horário. Modificar os manas no círculo mágico é necessário para poder baixar as magias.


Os jogadores começam com cinco cartas de magia na mão. Elas vêm com o custo em manas, pontuação recebida e efeito que será ativado. O jogo possui dois círculos mágicos distintos, cada magia pertencerá a um deles especificamente. Portanto, é preciso ficar atento para que os manas necessários para realizar a magia estejam no círculo mágico correto. Depois de feita a magia, os manas permanecem no mesmo local. Eles só são modificados quando no início do turno o jogador decide fazê-lo. Eu gostei bastante dessa parte do jogo, a rotação dos manas no círculos mágicos e o lance da filiação da magia. Por isso mesmo, achei um pouco desequilibrado que sendo algo tão difícil de fazer, se mostre tão pouco vantajoso. Os pontos são ganhos na hora e podem ser perdidos a qualquer momento pelo efeito de magia de outro jogador, o que acontece o tempo todo. É muito mais tranquilo e seguro investir nos círculos de cristais.




Os três manas localizado em cada ponta da parte de baixo do tabuleiro fazem subir os respectivos marcadores de torcida. Os jogadores podem pegar o mana que desejarem, não existe uma ordem prévia determinada. Assim sendo, é vantajoso fazer a ação de torcida que dá pontos no círculo de cristal. Para isso, basta colocar o mana pego no local indicado. Os pontos nos círculos de cristais garantem pontuação no final do jogo, livre da interferência de outros jogadores, além de serem utilizados no leilão dos implementos, que ocorre duas vezes durante a partida. Alguns implementos potencializam ainda mais essa vantagem. Então, para quê ficar se matando para fazer magia? Tirando o fato de ser legal.



Os implementos são uma parte do jogo que me incomodou um pouco. Alguns possuem restrição de uso e outros não, só que achei que alguns de utilização livre são bem mais fortes do que outros que são limitados. Isso é mais um motivo para focar nos círculos de cristais, assim poderá pegar os melhores implementos no leilão. Pode ser bom pegar determinado implemento, mesmo que não tenha uma utilização específica dentro da sua estratégia, só para atrapalhar outro jogador.


A terceira opção de ação que o jogador tem no turno é pegar um mana e colocar na sua reserva, nesse caso a única coisa que poderá fazer é descartar o número de cartas que desejar da mão e comprar novas. Não gosto desse tipo de ação de descansar, não usei nenhuma vez. Se tivesse utilizado, talvez não sentisse tanta dificuldade para baixar magias. Porém, notei que não fez tanta diferença para quem usou.

Após realizar uma das ações: círculo mágico, torcida ou descansar, o jogador compra duas cartas. O jogo é apenas isso, bem simples de regras básicas. A questão está na escolha dos implementos e de magias para baixar. O jogo não deixa tanto espaço para planejamento estratégico por conta da rotatividade dos manas nos círculos mágicos, ele é mais tático. O jogador age baseado na situação do momento, que pode mudar drasticamente a qualquer hora. Não é bom disparar muito na frente na pontuação para não virar alvo dos outros jogadores, o que mais uma vez comprova que investir nos cristais é melhor.

Na minha primeira partida, eu fiz muita magia, ficando na frente quase todo o tempo. Não prestei atenção aos círculos de cristais e acabei entre os últimos. Enquanto que quem tinha ficado atrás disparou no final. Então, na segunda partida resolvi seguir essa linha. Coloquei todo o meu foco em subir nos círculos de cristais, com isso peguei bons implementos nos leilões e venci quase sem fazer magia alguma. Os outros jogadores perceberam o que eu estava fazendo e do meio para o final me perseguiram bastante, tanto que conseguiram tirar a minha liderança em ambos os círculos de cristais. O que, no entanto, não impediu a minha vitória.

O primeiro grupo com quem joguei não curtiu muito, era uma galera mais ligada em Euro. Da segunda vez, joguei com um pessoal com um perfil bem diferente, jogadores mais casuais. Apesar do último grupo ter curtido bastante o jogo, duas coisas foram iguais em ambos: a sensação do jogo ser desnecessariamente longo e a confusão causada pelo texto grande e/ou confuso de algumas cartas, o que ocasionou a mesma piada de que o nome do jogo realmente faz jus a ele.

Eu não sou muito fã de cardgames em geral, o que jogo é por questões mais ligadas ao tema do que a mecânica, com raras exceções. Mas para quem gosta, acredito que seja uma boa opção. O preço não está ruim e pelo protótipo temos bons indicativos do que esperar da qualidade da versão final. Acho que é um jogo bastante indicado para galera que curte uma competição acirrada com bastante interação, além é claro de poder sacanear os amiguinhos.

Quem se interessar, segue abaixo link da página do FC do jogo.

http://www.kickante.com.br/campanhas/zona-magica

Segue também uma entrevista muito bacana que o Thiago Leite fez com o Michael Alves, autor do Zona Mágica. Além de conversar sobre o jogo, ele fala um pouco sobre os planos da Arcano Games para o futuro.



Um comentário:

  1. Parabéns, é uma avaliação honesta e direta, isso me fez repensar em participar do FC.

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