sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Quissama


Quissama foi um jogo que até chamou minha atenção, mas não o suficiente para participar do financiamento coletivo. Quando os apoiadores começaram a receber suas cópias e a postar as fotos bateu um certo arrependimento, ainda mais que o preço quase dobrou. Porém, surgiu uma chance de comprá-lo pagando em dinheiro praticamente o mesmo valor cobrado na época do FC. Isso foi possível utilizando um jogo que estava encostado aqui em casa como parte do pagamento. As pessoas podem surgir com presentes bizarros quando sabem que a gente gosta de jogos de tabuleiro e de um determinado tema. Parece uma combinação infalível, mas não é. Pensei que nunca conseguiria encontrar alguém interessado naquilo, mas existe gente doida para tudo. Obrigada, Fel Barros!!! Acho que só um game designer para se interessar por um jogo tão estranho. 

Enfim, peguei minha cópia na Joga de Natal promovida pelo grande Cacá do E aí, tem jogo?  - um dos mais antigos e ativos blogs sobre o hobby em atividade. Ele está sempre realizando jogatinas especiais, mas devido a distância acabo nunca indo. Porém, na Joga de fim de ano a gente sempre tenta fazer um esforço extra, essa foi a segunda vez que estive presente. Minha ideia não era jogar o Quissama no evento, tanto que guardei o jogo ainda lacrado dentro da bolsa. 

Em jogatinas assim, costumo dar preferência a experimentar coisas novas que dificilmente tenho oportunidade. Nem sempre dá certo, mas a gente tenta. Meus alvos da vez eram: Dune e Tesla vs Edison. Medina também foi um jogo que chamou muito a minha atenção e deu bastante vontade de jogar, não o conhecia até aquele momento. Não rolou. Além do Quissama, acabei jogando outros já bem conhecidos e casuais como Timeline e Bullfrogs. Mas até que não posso reclamar tanto, pois pude experimentar Xia, um jogo que já fazia tempo que queria conhecer. Adoro temática espacial. Achei bem divertido, apesar de só termos jogado o básico, espero ter outras chances para explorar mais de suas possibilidades. Outro jogo que experimentei foi o Fala Dercy que, caso tudo dê certo nas negociações e seja realmente lançado, promete ser o nosso grande party game nacional. Não esperava que fosse gostar tanto dele. Já tinha visto em eventos, Felipe chegou até a imprimir o PNP, mas nunca tinha me interessado.

Mas voltando ao Quissama, a cópia do Cacá estava aberta a disposição, porque haviam mais unidades lacradas disponíveis para quem quisesse comprar. Enquanto aproveitava para olhar os componentes do jogo, apareceu um pessoal interessado em colocá-lo na mesa. Ninguém sabia as regras, o lance seria ler o manual ali na hora. Não parecia ser uma tarefa difícil, o jogo não é grande, assim como seu manual. Mas após montado o setup, começaram as dores. Eramos quatro jogadores, mais uma quinta pessoa que estava de expectadora. O manual foi passando de mão em mão para ver se alguém conseguia decifrar. A gente não estava acreditando, porque não era possível que o jogo fosse assim tão complicado. E realmente, não é. Depois de entendida as regras é até bem fácil.

Relevem a falha na montagem do setup. Ficou faltando um capoeira em uma das Praças Guaiamuns. 

Uma coisa que complicou muito a gente foi que o manual mistura as regras com lore, ele vai explicando as ações utilizando os nomes dados a cada coisa no jogo, sem fazer uma correlação prévia. No primeiro contato, o que o jogador vai ver predominantemente são cartas divididas entre as cores vermelha e azul, assim como o tabuleiro também é dividido dessa forma. Então, quando se lê no manual o tempo todo referência só a Guaiamuns e a Nagoas, acho que é natural se sentir meio perdido. O fato de estarmos lendo o manual apresadamente no meio de um evento cheio de barulho em volta também não colaborou, talvez lendo com calma em casa a dificuldade não seria tanta. Ainda assim, acredito que um manual tão pequeno de um jogo tão simples deveria ser de uma compreensão mais imediata.

Antes de escrever sobre as regras, gostaria de comentar sobre os componentes, que junto com o manual se destacam negativamente no jogo. Quissama tem as piores cartas com as quais já tive contato na vida, elas são extremamente finas. A impressão que dá é que vão se desfazer na sua mão. A primeira coisa feita ao abrir a cópia do jogo aqui em casa foi sleevar todas as cartas, ainda bem que elas possuem aquele tamanho mais tradicional, então já tinha os sleeves aqui. Outra coisa que não gostei e achei incompreensível foi a expansão para adicionar um quinto jogador, que nada mais é que um conjunto extra de meeples. Não reclamo por uma questão de custo, só acho que deixou uma impressão ruim por nada. O jogador olha a indicação 2-5 impressa na caixa e aquele espaço vazio no insert, não ficou bacana isso.

Depois que descobri que as moedas devem ficar no espaço menor dentro de onde estão os meeples pretos. Essa área lateral é para um tapete para organização de área de jogo que eles estão vendendo separado.

Imagem do tal tapete organizador. Não curti estarem vendendo por fora, assim como os meeples para o quinto jogador. Pareceu que caparam o jogo de propósito. 

Mas nem só de reclamações vivem as minhas impressões sobre os componentes de Quissama. O insert é bom, muito melhor do que aquelas porcarias de papelão que a maioria dos jogos usam só para não ficar tudo solto dentro da caixa, mas que em matéria de organização mais atrapalha do que ajuda. Ele comporta todos os componentes confortavelmente. Os meeples não são aqueles tradicionais de madeira, eles são feitos de resina, mas ficaram bacanas. Porém, o que eu mais curti foi a arte. Tanto o tabuleiro quanto as cartas estão bem bonitos. Achei que a arte tem toda uma personalidade própria que se encaixa perfeitamente com a temática. Ela é meio cartoon, mas sem cair para o lado do humor. A diagramação também ficou muito boa, apesar de não haver tantos elementos para serem organizados no tabuleiro. Gostei bastante do resumo de ações em cada lateral, torna fácil lembrar as opções do jogador. Só a ordem do turno me pareceu confusa e não traz a ação de compra dos personagens, parece que não acharam uma forma simples de colocar isso expresso no tabuleiro.

Todos os lados do tabuleiro vem com um resumo bem bacana das ações.

Quissama é um jogo baseado em um livro que conta a história do escravo foragido que com a ajuda de um detetive inglês tenta encontrar sua mãe. Misturado aos personagens do livro, temos algumas figuras históricas reais. O lance do jogo é conseguir "comprar" um deles e cumprir o seu objetivo. Cada jogador começa com cinco cartas na mão e um meeple em dos espaços de Comércio. Além dos personagens que apresentam as condições de vitória possíveis no jogo, teremos também aberta na mesa três cartas que são chamadas de Mercado.

Os personagens.

Em Quissama não existe limite de ações, o jogador pode fazer quantas ações puder com as cartas que possui na mão. Ele é um set collection simples. Não existem muitas variações de cartas, apenas uma ou outra carta com poder especial. Baseado nas diferentes combinações de cartas, o jogador pode colocar um meeple no Ministério (que só pode ser retirado com o uso de uma carta específica), isso lhe possibilita comprar uma carta no início do turno; abrir um novo Comércio, para fazer mais dinheiro; Libertar escravos, eles entram da reserva (Senzala) nas Praças; Contratar os capoeiras (nome dado aos escravos libertos) da Praça para o seu Comércio, que só gera dinheiro quando está completo e Atacar o Comércio dos amiguinhos, sempre com a facção contrária e se a Praça estiver com capoeiras, o ataque será primeiro nela. Uma vez no turno o jogador pode trocar uma carta de sua mão com uma disponível no Mercado. Ele também pode descartar quantas cartas quiser e repor a mão até cinco cartas, não é permitido ter mais do que isso ao final do turno.

Cartas comuns.

Cartas especiais.


Como cada jogador começa com um Comércio e temos pelo setup dois capoeiras por Praça, a ação mais comum de início de partida é tentar Contratar para gerar mais dinheiro, um requisito presente em quase todas as ações. Conseguir completar rapidamente um Comércio é muito bom. O dinheiro ganho através dele é indicado por moedas. Depois fica fácil abrir mais Comércios. Se não conseguir Contratar, outra ação comum é Libertar para colocar mais capoeiras na Praça, o que é bom porque protege seu Comércio de ataques. Não é bom Contratar e deixar a Praça vazia. Achei bem difícil realizar ataques nesse jogo. Por fim, temos a ação de Ministério que só pode ser desfeita utilizando a carta de escândalo, só existem seis delas no deck e quando utilizadas, não são descartadas, mas saem de jogo. Ter Ministros é muito bom, pois deixa comprar carta no início do turno, mas se for utilizado muito no início do jogo existe um risco grande de ter ser retirado, se no final não aproveitará tanto a vantagem oferecida pela posição. Tem um pouco de sorte envolvida nisso.

Contratando.

Abrindo um novo Comércio.

Colocando novos capoeiras na Praça.

Atacando o Comércio do amiguinho.

Colocando Ministro.

Expulsando um Ministro.

A parte de pegar os personagens é que é mais chatinha, mas ao mesmo tempo mais interessante e onde está a rejogabilidade de Quissama. Cada um deles exige uma combinação de cartas específica, assim como as outras ações só que um pouco mais difíceis. Além disso, é necessário jogar as cartas duas vezes, porque o que o jogador faz na verdade é tentar trazer aquele personagem para o seu lado através da Influência. Ao conquistar um personagem, o jogador passa a contar com a habilidade especial dele. Mas nada garante que aquele personagem que deu tanto trabalho para conseguir vai permanecer ao seu lado. Os outros jogadores podem jogar a combinação de cartas necessárias com um adicional de penalidade para tentar roubá-lo. Quando um outro jogador tem Influência sobre um personagem seu, a habilidade especial não pode ser utilizada. É preciso utilizar mais uma vez a combinação especifica de cartas para retirar a Influência do oponente. Acho que com a experiência no jogo esse se torna o ponto principal. Até porque, um jogador pode conquistar um personagem com o objetivo já cumprido ou quase e aí conseguir uma rápida vitória. Mas a principio, a disputa não é tão grande, meio que cada um pega o seu e tenta cumprir o objetivo o mais rápido possível.

Influenciando o Alemão.

Influenciando para roubar o personagem do amiguinho.

A primeira partida foi com quatro jogadores e eu era a mais inexperiente da mesa. Os outros três eram todos bem heavy gamers. Tive bastante dificuldade para desenvolver meu jogo, as cartas não vinham. Não consegui pegar nenhum personagem. O pessoal conseguiu pegar os personagens e rolou até bastante disputa na reta final. Na segunda partida, só eu e Felipe foi mais tranquilo, cada um pegou um personagem, só que eu demorei muito para pegar o meu e ele quando pegou o dele já estava com o objetivo praticamente feito. O personagem do Felipe era o José de Alencar e ele ficou fazendo aquela piadinha sem graça da Senhora. Mais uma vezes, eu senti uma dificuldade bem grande em gerenciar minha mão. Reclamei que estava achando isso muito apertado e ele argumentou que essa tinha que ser a grande dificuldade do jogo tendo em vista sua mecânica principal.

Tão engraçadinho. ¬¬

Depois de jogar pela primeira vez, minha vontade imediata foi devolver o jogo ainda lacrado e pegar o meu dinheiro de volta. Porém, após uma nova partida já sabendo as regras e na calma do lar, achei que o jogo fluiu melhor e tem potencial para ver bastante mesa. Ele tem uma temática muito interessante, eu sou gosto bastante de temas nacionais. O manual vem com várias sugestões de variantes, quero experimentá-las. Deve ser uma experiência muito mais legal para quem leu o livro, ele tem um personagem que deve ser extremamente importante na história, que é o Alemão, pois ele tem uma área no tabuleiro (Cabeça de Porco) que só serve para cumprir o objetivo dele. Se ninguém pegar esse personagem, fica uma área sem uso. Uma partida com quatro jogadores é bem mais apertada do que com apenas dois jogadores. Com uma quantidade menor, é mais fácil fazer as ações no tabuleiro, praticamente não há necessidade de realizar ataques. Mas como a questão é cumprir os objetivos do personagem escolhido, o jogo mantém seu equilíbrio. Pelo preço que foi custou, acho que no final das contas valeu a aquisição. Se fosse para comprar pelo valor cheio, que está atualmente sendo cobrado, acho que não pegaria, existem opções mais atraentes.

O hype atrapalhou o jogo nesse caso, pois criei muitas expectativas. Ele diverte apenas, nada além disso. Eu não consegui sentir um pingo de imersão na história, poderia ser qualquer outra coisa ali. As regras são simples e possuem até uma certa elegância, mas faltou um maior refinamento. Acho que Quissama tinha potencial para entregar bem mais. Acabou sendo apenas um jogo regular, talvez com um pouco de boa vontade até bom. Mas não passa disso. O que eu realmente acho uma pena. Ou talvez, eu simplesmente não seja o público-alvo, isso é algo para sempre levar em consideração.

Saiba mais ouvindo o podcast que gravamos sobre o jogo:



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