segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Entrevista com Christophe Boelinger, designer do Dungeon Twister: The Card Game


Na minha opinião, Christophe Boelinger foi a grande atração do Diversão Offline. O game designer francês esbanjou simpatia, sempre se mostrando disposto a explicar seus jogos, dar autógrafos e tirar fotos. Trazido ao evento pela Conclave Editora, sua apresentação memorável de Illegal em frente ao próprio estande deles fez todas as cópias do jogo esgotarem. Se eu já não o conhece previamente, talvez me deixasse levar pela empolgação também e comprasse. 

Illegal é divertido, mas não vale o preço pelo qual é vendido. Bem diferente do seu novo lançamento no Brasil, o Dungeon Twister Card Game. Uma excelente adaptação de um de seus jogos mais populares e com uma das melhores relações custo-benefício que eu já vi nos últimos tempos. Não vou continuar escrevendo sobre o jogo porque vai rolar texto sobre ele aqui em breve. 

A entrevista a seguir foi realizada no final do evento, quando todos já estávamos bem cansados depois de um dia de bastante agitação. Eu achei que fosse ser um bate papo bem rápido, o que seria bastante compreensível. Mas o Christophe sentou no chão e conversou com a gente, simples assim. Sem formalidades, perguntas e respostas foram fluindo naturalmente, nada muito planejado ou cronometrado. Espero que vocês curtam ler a entrevista tanto quanto a gente curtiu fazer. No aguardo de mais jogos desse grande game designer no Brasil, a bolsa de protótipos estava carregada.


TE: Esta é sua primeira vez no Brasil?

CB: Não, é minha segunda vez. Eu estive aqui há dois anos atrás. Podemos dizer que vim com quatro objetivos em mente. Era um país que eu queria muito visitar. Estranhamente, eu visitei muitos outros antes, deixando o Brasil por último. É como diz aquele ditado popular sobre a “cereja no bolo”. Eu sabia que iria amar o lugar, por isso deixei-o por último. Passei por Fortaleza para conhecer algumas atrações locais. Depois pelo Rio de Janeiro, eu quis verificar como estava o mercado de jogos no Brasil, para isso fiquei durante três semanas na companhia do Fel Barros, o designer de Warzoo.

TE: Legal! Você jogou Warzoo?

CB: Sim. Na época, ele ainda estava fazendo os playtestes, então gostei mais de observar e ver como os jogadores encaravam o jogo. Assim poderia dar ao Fel algumas dicas sobre o que estava funcionando ou não, algumas dicas de design. Mas, eu provavelmente mexi em pouca coisa, pois ele estava no final do desenvolvimento.

TE: Certo, e o quarto motivo da visita ao Brasil?

CB: Ah sim! O quarto motivo foi pelo fato de que sempre pensei em achar a mulher dos meus sonhos aqui, no Brasil. E na verdade, eu a encontrei! (risos) Então acho que conclui os quatro objetivos que tinha. (Nota da redação: Christophe estava acompanhado de sua esposa brasileira durante o evento, que estava auxiliando nas explicações dos jogos e nas apresentações para quem não falava inglês)

TE: Legal, parabéns! E nessa segunda vez que você está aqui, veio para acompanhar o evento?

CB: Na verdade, vim porque minha esposa é daqui, do Rio. Ela se mudou para a França, mas eu vim conhecer seus pais. Calhou do Cristiano, da Conclave Editora, me convidar para o evento e outras programações. Eles também estão lançando o meu Dungeon Twister Card Game, então pude encaixar todos os meus compromissos. Participei de dois ou três pequenos eventos durante a semana, que ocorrem aqui no Rio, na verdade.

TE: De dois anos para cá, o mercado brasileiro de jogos mudou muito. Você percebeu isso?

CB: Eu percebi essa mudança. Quando voltei para a França há dois anos pensei: “Os brasileiros estão começando a descobrir jogos modernos, como se o ovo estivesse rachando”. Depois de um tempo, tivemos aqui o meu primeiro jogo, Illegal, e agora Dungeon Twister. Voltei depois de dois anos e posso realmente dizer que o mercado de boardgames aqui está crescendo muito rápido. Isso é muito bom. 

TE: Quais foram suas impressões sobre o Diversão Offline?

CB: Para um primeira edição, foi muito legal. Vi que teve bastante gente, foi bem organizado... Sabe, eu fiquei boa parte do tempo ocupado e sempre autografando jogos, explicando as regras. (risos) Fiquei bem ocupado, mas o que vi gostei.

TE: Por que você decidiu lançar no Brasil o Dungeon Twister Card Game e não o Boardgame, que é mais antigo?

CB: Creio que seja uma questão de custo de produção. Ainda que o mercado esteja crescendo, os números de tiragem de um jogo não cresceram tanto, temos apenas mil unidades. Para um jogo de tabuleiro nessa tiragem, que usa miniaturas, o custo seria proibitivo, e isso não é nada bom. Então, optamos primeiro pelo card game, ele não usa miniaturas e com ele podemos ter a tiragem de mil cópias sem correr muitos riscos. Na verdade, os dois jogos possuem a mesma “pegada”. As regras são similares, falam de controle de área, sem sorte. Os dois são muito parecidos. Se você assistir ao vídeo do Tom Vasel, por exemplo, ele diz que o cardgame se parece muito com o boardgame, a ponto de ele não querer mais carregar o boardgame por aí, graças a caixa menor do cardgame. Por tudo isso, acho que tomamos uma decisão acertada ao lançar o de cartas por aqui, principalmente pelos custos.

TE: E será que podemos esperar ter o boardgame por aqui, mais tarde?

CB: Se formos reimprimir o jogo no mundo tudo, então provavelmente sim. Mas se somente a Conclave quiser fazer isso... Aí o seu mercado teria que crescer um pouco mais rápido, para que possamos rodar talvez cinco ou dez mil cópias de tiragem. No momento, duvido um pouco que isso aconteça. Talvez em três ou quatro anos... A não ser que tenhamos uma nova tiragem no mundo todo, ou lancemos uma campanha de financiamento coletivo, algo nesse estilo.

TE: Não sabemos se você está por dentro de alguns lançamentos mundiais, mas há criadores brasileiros que estão lançando jogos exclusivamente no exterior, ou primeiro no exterior. Você acha que podemos ter o fluxo contrário? Digo, ao aproximar relações com o mercado brasileiro, talvez o Christophe Boelinger lance um jogo primeiro por aqui, para o público brasileiro?

CB: Sabe, alguns eventos que fui aqui no Rio, como na RedBox e na Magic Store, me revelaram muitas coisas. A RedBox, por exemplo, não é só uma loja. Eles começaram a se tornar uma editora, e estão atrás de jogos para publicar. Por isso,  enviei para eles arquivos de alguns dos meus protótipos. Tenho toneladas de protótipos em casa, e acho que não tenho tempo de cuidar deles a todo o momento.

TE: Vimos sua mala extremamente pesada! (risos)

CB: Sim, sim, eu trouxe alguns comigo, mas são muitos. Eu faço apenas uma cópia de cada um deles, pois sou preguiçoso. Mas há arquivos digitais, e foi isso que mandei para a RedBox, com regras, imagens, tudo o que for necessário para que eles possam imprimir um dos meus protótipos. Quando eu retornar à França, eles vão me dizer aqueles que gostaram. A partir daí, eu vou mandar novas cópias para que eles testem e divulguem... Então sim, isso pode acontecer pela primeira vez. Há alguns jogos que eu não penso em publicar pela minha editora, a Ludically. Mas isso seria algo excepcional, e não algo que vá ocorrer comumente.

TE: Ainda sobre Dungeon Twister Card Game, que tipo de jogador ele pode agradar? Casuais? Experientes?

CB: Primeiramente, jogadores que gostam muito de Magic The Gathering. Normalmente o que um jogador de Magic não gosta é da falta de controle total de suas cartas. Aqui você pode montar sua equipe de personagens, distribuí-la da forma que quiser e não há aquele efeito de compra de cartas ou algo aleatório. 

Sei disso pois, na França, muitos jogadores de Magic gostaram de Dungeon Twister. Eu mesmo, amo Magic! Por isso, acho que esse tipo de jogador seja o primeiro alvo. Esse é um tipo de jogo que já vem com tudo que é necessário para se jogar, sem novas regras, sem cartas adicionais, é muito rico nesse sentido, uma partida sempre vai ser bem diferente da outra.

O outro tipo de jogador que deve se sentir atraído por Dungeon Twister Card Game está nos casais. Casados principalmente, por ser um game para apenas duas pessoas. Na Europa, principalmente na França, tivemos muitos relatos de casais, que jogavam todas as noites e postavam seus resultados na Internet. Toda noite, depois da janta, eles jogavam, e, quem perdia, precisava lavar a louça. (risos)

Além dos casais, por ser um jogo muito fácil, também acredito que as crianças sejam um bom público-alvo. Uma criança que goste de xadrez, por exemplo, mas com algo mais interessante. Eu não estou criticando o xadrez, claro, é um jogo milenar, mas ainda assim é abstrato. Aqui ele tem todos os personagens de fantasia, que podem lembrar O Senhor dos Anéis, desenhos, etc. Pode ser um pouco mais atrativo do que o xadrez. Somando isso ao total controle, as crianças podem gostar muito do jogo.

Basicamente, você pode atingir todo mundo com Dungeon Twister Card Game, casuais, primeira vez, jogadores experientes, casais, quem joga Magic, etc.

TE: Agora a mesma questão, só que sobre Illegal. Que tipo de jogador poderia se interessar por esse seu outro game?

CB: Illegal tem um apelo muitíssimo alto para um enorme público, principalmente por não ter quase nenhuma regra. Você basicamente precisa dar as cartas para os jogadores e começar a trocar pela sala.

TE: Mas talvez não para crianças, certo?

CB: Não, não para crianças. Lançamos ele por aqui voltado para o mercado de maiores de 18 anos, é o que está na caixa. Mas não por ser ilegal. Na França, podemos lançar o jogo sem colocar a idade adequada na caixa. Isso é só algo que estamos dizendo que você vai lidar com temas pesados no jogo, como drogas, prostituição, álcool. Por conta do tema, para ser honesto com o público.

Mas sabemos que não adianta muito, quem dita isso são jogadores. Hoje as crianças jogam GTA, o Grand Theft Auto, que é proibido para menores de idade, e fazem coisas dez vezes piores do que você faz em Illegal. Por isso, colocamos na caixa para termos a consciência tranquila.

Mas voltando às regras, elas são muito, muito simples. Além disso, cada partida dura sempre menos de 30 minutos. É como um party game com elementos de RPG, pois você tem um papel para interpretar e desempenhar. Não é exatamente um boardgame, pois usa cartas, mas também não é um cardgame. No final das contas, é algo totalmente casual.

TE: E para o futuro, Chris? Você tem algum jogo novo já programado para a Conclave? Ou algum jogo saindo no mercado nos próximos meses?

CB: Tenho um protótipo que apresentei aqui no evento e estou começando a receber algum feedback dele, o nome é Four Gods. Mostramos ele em Essen [Nota do editor: outro nome para a feira de boardgames “Spiel” na Alemanha), onde eu conheci o pessoal da Conclave. Eles adoraram o jogo e colocaram para ser apresentado aqui, no Diversão Offline.

Também testei o Four Gods nos pequenos eventos aqui do Rio e todos adoraram. A Conclave, na teoria, vai participar da produção. Ainda não estamos fechados e não tenho certeza quanto a isso, mas estamos quase certos. O jogo deve sair a partir de abril ou início do segundo semestre do ano que vem. Há outro título que também estou trabalhando, esse mais voltado para o gênero party game, que é o Fruit Salad. Mas não tive muito tempo de demonstrá-lo por aqui, por conta de falta de espaço e de tempo. Estarei com eles em Juiz de Fora nas próximas semanas para mostrar mais dos meus protótipos e falar também sobre esses próximos jogos.

TE: Ótimo! Chris, agradecemos seu tempo e esperamos que curta bastante o Brasil e tenha sucesso com seus jogos por aqui.

Ao final do bate-papo, conversamos com o Christophe por mais alguns minutos, onde ele comentou sobre o peso na decisão entre lançar um game baseado na temática ou na mecânica. “Penso sempre na temática”, disse. Ele nos exemplificou que é possível fazer um game de qualquer tema, utilizando um de seus antigos jogos, sobre piolhos, chamado Les Poux, lançado em 2008. “Ele é muito interessante. É um party game onde você precisa se movimentar bastante, coçar a cabeça, catar os piolhos, ficar de olho nas cartas para que os outros jogadores não as roubem de você”, mencionou. “Por isso, acredito que é possível ser criativo na forma de criar um jogo, independente do tema, apenas encaixando a mecânica depois”, finalizou.

Enquanto não sai o texto sobre o Dungeon Twister Card Game, ouça nossas primeiras impressões sobre o jogo no vídeo abaixo. Esse é um novo formato que estamos testando para ampliar e diversificar nossa oferta de conteúdo. O blog sempre será o foco principal, mas isso não nos impede de querer "brincar" com outros modelos. Já fizemos alguns vídeos aqui ao longo da existência do blog e agora teremos também esse rápido podcast, porque de longo já bastam os textos aqui. Inicialmente, estamos disponibilizando apenas através do canal do Youtube que criamos para o Turno Extra, onde iremos reunir outros materiais já postados e que se encontram em perfis particulares. Estamos estudando ainda a melhor forma de oferecer apenas o áudio e também opção para download. Agora, além de curtir nossa página no FB, curta também o nosso canal no Youtube.


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